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26.04.2021Blog

Premiações cinematográficas num ano tão confuso e o Oscar 2021: o que ver, onde e porquê?

Nesses últimos dias eu estava conversando com algumas pessoas e quando eu comentei sobre a premiação do Oscar, algumas me perguntaram: "Mas quais são os filmes que estão concorrendo? Não ouvi falar de nenhum", ou "Mas vai ter Oscar sem filmes no ano passado?".

Por isso, mesmo um dia depois da última das premiações dos filmes de 2020, decidi escrever esse texto porque muitos filmes precisam ser vistos e porque precisamos nos informar sobre o mercado de entretenimento audiovisual, categoria que há alguns anos passa por diversas demandas, mas que continua em pé aos trancos e barrancos. Estamos num momento em que é crucial defender a arte e nessa área, podemos contar com um esforço vigoroso entre pequenos distribuidores, streamings e o famoso boca a boca, tão importante nesses temos difíceis.

E para nós que usamos as palavras como uma das nossas ferramentas de trabalho, as histórias contadas nas telas são grandes inspirações. Há muito para nós para admirarmos, guiarmos, estudarmos, sabermos e vivermos com o coração.

Em um ano tão atípico, produções menores e serviços de streaming acabaram ganhando força no mundo do cinema e acompanhando os indicados às diversas premiações pudemos ver muitos filmes tão importantes que contam muito sobre o que foi, o que é o que pode vir a ser nossa sociedade. Histórias que se passaram e que não podem ser esquecidas. Roteiros adaptados que trazem muita força. Alguns filmes são uns must-see e por isso vou trazer um pequeno resumo sobre a categoria principal, adicionando alguns outros comentários por minha conta.

Vi pouquíssimos filmes ano passado. No início da pandemia não conseguia ver nada mais profundo e mergulhei em seriados leves, filmes que mais tinham a proposta de divertir e que me fizeram esquecer um pouco de um momento tão desesperador que tão pouco sabíamos a respeito. Porém, no final do ano comecei a acompanhar alguns títulos que estavam ganhando um burburinho dentre as premiações que costumo acompanhar.

Os filmes premiados são os melhores? Não necessariamente. Depende. Divide a opinião de muita gente. Mas o principal dessas premiações é nos trazer a oportunidade de ter acesso a diversas histórias que se não fosse por esses meios, talvez não tivéssemos acesso. Produções de tantos belíssimos países, atuações de tantos artistas, músicas de tantas entonações, roteiros de tanto poder, olhares de tantas cores. E também alguns discursos extremamente relevantes feitos por gente com grande alcance de algoritmo e voz. A ponta da pirâmide para alguns, o começo de uma reflexão para outros. Necessários.

O calendário de premiações começam lá pelo final do ano anterior e incluem alguns eventos tradicionais como o Globo de Ouro, o BAFTA, o Critics' Choice Awards, os sindicatos de várias categorias e também o Oscar, que pode ser a premiação mais famosa, mas é também é a mais duvidosa.

A escolha da principal categoria da noite traz muitas críticas, controvérsias e questionamentos de muitos profissionais da área e sugiro ler esse texto para entender a fundo como a escolha de melhor filme funciona. Basicamente, as pessoas votantes fazem uma lista de 5 nomes por ordem de preferência e caso uma produção conste em primeiro lugar em 50% das listas, é a vencedora. Como votações nunca são simples, há uma série de fatores que fazem com que nomes muitas vezes não óbvios ganhem. Assim, há uma tendência de filmes votados como uma opção mediana ganhem a estatueta.

Nesse ano, a 93ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, ou Oscars 2021 aconteceu presencialmente em dois locais americanos e mais um local em Londres e essa forma presencial se deu somente graças ao sucesso do avanço da vacinação nos EUA. As pessoas convidadas seguiram um protocolo eficiente para comparecer: foram vacinadas e testadas e foram acomodadas em dois locais pequenos e com distanciamento social.

Sobre as indicações...

Vou sugerir uma conferida nesse link que traz uma lista completa dos lugares disponíveis para assistir alguns títulos e, por se tratar de muitas categorias, vou deixar aqui listado os indicados a melhor filme:

  • Meu pai (Now, Google Play)
  • Minari (Em cartaz nos cinemas de algumas cidades)
  • O som do silêncio (Amazon Prime Video, Now, Google Play, Apple TV, Looke)
  • Nomadland (Em cartaz nos cinemas de algumas cidades)
  • Mank (Netflix)
  • Bela vingança (Estreia nos cinemas prevista para maio)
  • Os 7 de Chicago (Netflix)
  • Judas e o messias negro (Em cartaz nos cinemas de algumas cidades)

Um pequeno resumo dessas indicações:
Meu Pai
Sinopse resumida:
Um homem recusa a ajuda de sua filha à medida que piora de sua condição de demência, começando assim a duvidar de seus entes queridos, de sua própria mente e até mesmo da estrutura de sua realidade.
Direção: Florian Zeller
Porque você deveria ver: Adaptações de teatro costumam render ótimas produções que acrescentam muitas surpresas às telonas. Sendo o próprio Zeller o autor da peça original, é no mínimo curioso pensar no processo de transcrever essas ideias para o papel, para o palco, para um novo roteiro e para as grandes telas. Anthony Hopkins tem 141 créditos por atuaçõs segundo a ficha do IMDB e o tema principal do filme se faz muito relevante diante do ritmo de envelhecimento da população mundial aumentando em alta escala.

Minari
Sinopse resumida:
Uma família coreano-americana se muda para o Arkansas buscando seu próprio sonho americano. Em meio aos obstáculos dessa escolha, a família faz jus ao real significado de um lar.
Direção: Lee Isaac Chung
Porque você deveria ver: O cinema coreano se tornou popular nos últimos anos e essa foi uma deixa para os americanos fazerem sua versão. Como consequência, os atores coreanos acrescentam muito à produção e nos traz uma importante história sobre a formação dessa grande nação.

O som do silêncio
Sinopse resumida:
A vida de um baterista que vive pela música tem uma ruptura quando ele começa a perder sua audição. Assim, ele questiona sua vida e as motivações à sua volta, em busca de uma nova ressignificação.
Direção: Darius Marder
Porque você deveria ver: Paul Raci foi a escolha mais apropriada pro papel por ter sido criado por de pais surdos e por ser fluente na Língua de Sinais Americana. Há muito sobre o que refletir por aqui: a representatividade da comunidade de pessoas surdas sobre as diversas formas de comunicação, a ressignificação de uma vida baseada num ser que teve sua vida drasticamente mudada. As premiações são pra lá de merecidas.

Nomadland
Sinopse resumida:
Uma mulher aos seus 60 anos que, perdendo tudo na Grande Recessão, parte em uma viagem pelo Oeste americano, vivendo como uma nômade moderna e conhecendo muitas pessoas nômades por opção de vida ou por impossibilidade de pagar um teto.
Direção: Chloé Zhao
Porque você deveria ver: Baseado no livro homônimo da jornalista Jessica Bruder, Frances McDormand é a única atriz profissional do filme. Todas as outras pessoas são reais nômades, muitos deles presentes no livro original. A diretora já trazia a experiência em dirigir pessoas não atuantes, o que deu um toque especial à obra.

Mank
Sinopse resumida:
A história de Herman J. Mankiewicz, o roteirista de Orson Welles em "Cidadão Kane" e sua luta contra Welles pelo crédito do texto do longa.
Direção: David Fincher
Porque você deveria ver: A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross (alô, uma grande fã de Nine Inch Nails aqui!) traz um charme muito especial ao longa filmado em preto e branco para trazer o clima "róliudiano" característico da década. As histórias por trás de grandes produções e grandes nomes têm trazido muitas discussões sobre um passado demasiadamente romantizado.

Bela vingança
Sinopse resumida:
Cassie, a personagem principal, é inteligente, astuta e... mulher. E elabora um grandioso plano em busca de uma vingança sobre erros do passado abafados em nome do patriarcado.
Direção: Emerald Fennell
Porque você deveria ver: Um filme dirigido por uma mulher que conta uma história que toda mulher, no mínimo, conhece alguma outra mulher que já vivenciou. Como mulher é difícil resumir as tantas razões para ver esse filme, que é muito bem retratado por sua diretora.

Os 7 de Chicago
Sinopse resumida:
Em um não tão longínquo 1968, um protesto pacífico contra a guerra do Vietnã em Chicago, se transformou em um confronto violento com a polícia. Um ano depois, sete pessoas foram acusadas de conspiração pelo governo federal dos Estados Unidos.
Direção: Aaron Sorkin
Porque você deveria ver: Poderia ter sido ontem. Algumas décadas se passaram e nada mudou. É um filme que causa muita revolta e traz um discurso do personagem Tom Hayden extremamente emocionante no final. Seguimos na luta.

Judas e o messias negro
Sinopse resumida:
História de ascensão e queda de Fred Hampton (Daniel Kaluuya), ativista dos direitos dos negros e revolucionário líder do partido dos Panteras Negras. Jovem e focado em política, Fred atrai a atenção do FBI, que com a ajuda de um infiltrado, expõe seus parceiros, contribuindo para o assassinato de Hampton.
Direção: Shaka King
Porque você deveria ver: Fred Hampton foi um ativista revolucionário importantíssimo para sua época e, continuando com o tema anterior, também foi um dos orientadores da plateia durante o julgamento dos 7 de Chicago. Daniel Kaluuya é um dos melhores atores negros da atualidade e traz uma performance emocionante.

De forma geral, as premiações desse ano focaram em demência, alcoolismo, surdez, racismo e moradia, trazendo à tona os problemas de uma sociedade mundial que colapsou em diversos sentidos, inclusive em questão de políticas públicas. Há muito o que ser questionado ai.

Também vale a pena ver...
Host
Terror é meu gênero favorito e é constantemente esquecido nas premiações. Assim, me sinto na obrigação de trazer essa produção que, no mínimo, vale sua assistida pelo projeto absurdamente simples e eficaz que marca o gênero traduzindo bem uma época de pandemia. Com apenas 55 minutos (simulando uma chamada de Zoom), o filme foi gravado, editado e dirigido à distância.

Homemade
Uma produção Netflix com curtas de diversos diretores de vários lugares do mundo feitos durante a pandemia. Há episódios ótimos que refletem muito do que estamos vivendo nesses últimos meses.

Borat: Fita de Cinema Seguinte
Sacha Baron Cohen virou sinônimo de Borat lá em 2006. O personagem retorna em meio a uma crise americana trazendo seu humor sagaz e crítico, inclusive com uma menção nada honrosa (e mais real possível) ao Brasil.

Druk - Mais uma Rodada
A primeira categoria que eu sempre bato o olho é a de indicados a filmes internacionais. Essa é considerada uma "comédia dramática" e destaco esses gêneros justamente pelo olhar que a sociedade traz sobre rir de questões associadas ao alcoolismo que mata milhares de pessoas por dia. Além disso, a dupla Thomas Vinterberg + Mads Mikkelsen já é muito querida por tanto ter nos impactado pelo filme "A caça". Vale muito.

O Tigre Branco
Baseado num livro do indiano Aravind Adiga e trazendo uma adaptação maravilhosa de roteiro, essa é uma forte história de ascensão social muito realista e sagaz. A história é desconfortável e deslancha num final forte. Não dá pra falar muito para não entregar o filme.

Além de todas as sugestões acima, recomendo muito que vocês assistam essa retrospectiva do David Ehrlich para te inspirar em novas aventuras cinematográficas.

Vamos continuar papeando sobre filmes? Me chame em algum dos meus canais. Vou adorar. Ou me siga aqui no Letterboxd, onde faço minha lista anual de assistidos.

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